A desindustrialização é um fenômeno natural nas economias avançadas: à medida que a renda per capita cresce, o setor de serviços expande sua participação no PIB e no emprego, enquanto a indústria manufatureira perde peso relativo. O problema brasileiro é que esse processo ocorreu de forma prematura — antes que o país atingisse o nível de renda que historicamente precede a transição.

Em 1985, a indústria de transformação representava 35,9% do PIB brasileiro. Em 2025, esse número havia caído para menos de 11%. Para efeito de comparação, países como Coreia do Sul e Taiwan mantiveram participação industrial acima de 25% do PIB mesmo com renda per capita significativamente superior à brasileira.

As causas estruturais

Economistas identificam um conjunto de fatores que contribuíram para a desindustrialização precoce brasileira. O câmbio apreciado durante os anos de boom de commodities (2003-2014) tornou as exportações industriais menos competitivas. A carga tributária elevada e complexa aumentou o custo de produção doméstica. A infraestrutura logística precária encareceu o escoamento da produção.

Mas há um fator frequentemente subestimado: a abertura comercial dos anos 1990, realizada de forma rápida e sem políticas de transição adequadas, expôs setores industriais brasileiros à concorrência internacional antes que tivessem condições de competir em igualdade.

As consequências para o mercado de trabalho

A indústria manufatureira historicamente oferece empregos de qualidade média para trabalhadores sem ensino superior — um segmento que representa a maioria da força de trabalho brasileira. A perda desses postos de trabalho não foi compensada por empregos equivalentes no setor de serviços, que tende a ser mais polarizado entre ocupações de alta e baixa qualificação.

O resultado é uma estrutura de mercado de trabalho com poucos empregos de qualidade média, o que contribui para a persistência da desigualdade de renda.